Consuelo Walss-Bass, uma renomada bioquímica e geneticista, se deparou com uma questão angustiante enquanto estudava as causas genéticas da esquizofrenia: “Por que minha irmã tem a condição e eu, não?”. Essa inquietação a acompanhou durante sua trajetória profissional e pessoal, especialmente ao lidar com o impacto da doença em sua família, incluindo sua mãe e sua irmã, Paty.
O pai de Consuelo, que viveu a dor de ver sua esposa sucumbir à esquizofrenia, rejeitou inicialmente a ideia de que Paty pudesse sofrer da mesma enfermidade. Para ele, essa possibilidade era insuportável, dado o sofrimento que já havia enfrentado. Essa negação, embora compreensível, ilustra como o estigma em torno da saúde mental pode ser avassalador.
Consuelo, que atualmente é professora de Psiquiatria e Ciências do Comportamento na UTHealth Houston, está prestes a publicar o livro “Por que a Minha Irmã?”, onde narra a experiência dolorosa de sua família com a doença que afetou suas vidas. A obra se propõe a entrelaçar relatos pessoais com descobertas científicas sobre a esquizofrenia, abordando tanto o sofrimento individual quanto a busca por respostas.
Em uma entrevista ao BBC News Mundo, Consuelo compartilhou suas reflexões sobre o impacto da doença em sua infância e a luta para entender os sintomas que sua irmã apresentava. Ela relembrou momentos marcantes, como a internação de sua mãe em um hospital neurológico, que deixou uma marca indelével em sua vida. A separação da mãe durante um período crucial de seu crescimento foi um desafio que moldou sua compreensão sobre a doença.
A autora também discute a complexidade da esquizofrenia, ressaltando que não existe um único “gene culpado”. Em vez disso, a combinação de fatores genéticos e ambientais pode contribuir para o desenvolvimento da doença. A falta de amor e apoio durante os primeiros anos de vida de Paty, associada a traumas e ao ambiente familiar, foram cruciais para o surgimento de sua condição.
Walss-Bass enfatiza a importância de reconhecer os sinais precoces da esquizofrenia, como isolamento e paranoia, que muitas vezes são confundidos com comportamentos típicos da adolescência. Ela reflete sobre a culpa que carregou ao longo dos anos, especialmente por não ter percebido a gravidade da situação de sua irmã mais cedo. Essa culpa é um sentimento comum entre familiares de pessoas com doenças mentais, mas Consuelo busca entender que a responsabilidade não deve recair sobre os entes queridos.
A relação entre Consuelo e Paty evoluiu ao longo dos anos, especialmente após uma busca intensa para reencontrá-la. Hoje, Paty vive com Consuelo e sua família, onde encontrou um ambiente de apoio e amor. A rotina estruturada e as interações sociais têm proporcionado momentos de felicidade para Paty, que agora participa de atividades em uma casa-clube, algo que Consuelo considera fundamental para o bem-estar de pessoas com esquizofrenia.
Consuelo Walss-Bass acredita que, apesar dos desafios, há esperança no avanço da pesquisa sobre a esquizofrenia. Embora os medicamentos disponíveis ainda sejam os mesmos de décadas atrás, a compreensão dos mecanismos biológicos por trás da doença está se expandindo. Ela é otimista de que novas abordagens terapêuticas possam surgir, o que poderia ajudar a melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reduzir o estigma associado às doenças mentais.
Por fim, a autora reconhece que sua busca por respostas sobre a condição de sua irmã continua. O livro não se propõe a oferecer uma explicação definitiva, mas sim a estimular uma conversa mais ampla sobre a esquizofrenia e o impacto que ela tem na vida das pessoas e suas famílias. A mensagem é clara: a compreensão e a empatia são fundamentais para desmantelar o estigma que ainda rodeia as doenças mentais.



