Uma nova pesquisa que analisou dados genéticos de mais de 28 mil indivíduos trouxe à tona um mecanismo promissor para o tratamento de doenças hereditárias do sangue, como a anemia falciforme e a beta-talassemia. Publicado na revista Nature, o estudo, que contou com a colaboração de pesquisadoras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), revelou o papel da proteína BACH2 na regulação da hemoglobina fetal, componente essencial durante a gestação.
A proteína BACH2 atua como um inibidor da produção de hemoglobina fetal. Ao diminuir sua ação em células cultivadas em laboratório, os cientistas conseguiram aumentar a produção dessa hemoglobina, que tem mostrado benefícios para pacientes com anemia falciforme. A imunologista Ester Sabino, que integra a equipe de pesquisa, destaca a importância dessa descoberta: “Aumentar a hemoglobina fetal pode atenuar os efeitos das doenças hereditárias do sangue”, afirma.
A hemoglobina é crítica para o transporte de oxigênio no corpo, e sua forma fetal é substituída pela hemoglobina adulta ao longo do desenvolvimento. Em portadores de anemia falciforme, uma mutação genética compromete o funcionamento da hemoglobina adulta, enquanto a beta-talassemia se caracteriza pela produção insuficiente de uma de suas partes. Nesse contexto, o aumento da hemoglobina fetal surge como uma estratégia terapêutica viável.
Os pesquisadores identificaram 91 associações genéticas independentes em diversas regiões do genoma relacionadas à produção de hemoglobina fetal. Uma variante genética, que está ligada a níveis mais altos dessa hemoglobina e à diminuição da expressão de BACH2, foi particularmente reveladora. A equipe conduziu experimentos que confirmaram a influência direta da proteína na regulação da produção de hemoglobina fetal.
Além disso, a pesquisa explorou a relação entre BACH2 e outra proteína, chamada BCL11A, que também regula a hemoglobina fetal. Os resultados mostraram que, ao inibir ambas as proteínas, o aumento da hemoglobina fetal foi ainda mais significativo do que quando se inibia cada uma delas separadamente. Essa descoberta sugere que uma abordagem multifacetada pode ser mais eficaz no desenvolvimento de tratamentos.
No entanto, é preciso cautela. Apesar das promessas, os cientistas ressaltam que a pesquisa ainda está em estágios iniciais. “Estamos apenas começando. Antes de considerar essa estratégia uma alternativa de tratamento, precisamos realizar testes em modelos animais e, posteriormente, em humanos”, conclui Ester Sabino, ressaltando a importância de garantir a segurança e a eficácia das novas abordagens.
Crédito da imagem: Glóbulos vermelhos do sangue.



