O câncer de pulmão avançado, muitas vezes associado a um prognóstico sombrio, está vivendo uma revolução graças a novas terapias. Um estudo recente revelou que mais da metade dos pacientes tratados com o medicamento lorlatinibe conseguiram viver por sete anos sem a progressão da doença. Esse avanço é notável, especialmente considerando que, até pouco tempo atrás, a expectativa de vida para esses pacientes era medida em meses.
O lorlatinibe é um medicamento oral que atua especificamente em tumores com alterações genéticas no gene ALK, presente em aproximadamente 3% a 7% dos casos do câncer de pulmão mais comum. Embora a porcentagem de pacientes que se beneficiam dessa terapia seja pequena, os resultados são significativos. De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no Brasil, com mais de 31 mil óbitos anuais, o que torna qualquer progresso no tratamento uma notícia alentadora.
Paula Piteri, uma das pacientes que se beneficiaram do lorlatinibe, descobriu a doença aos 38 anos. Mãe de três filhos, seu mundo virou de cabeça para baixo após o diagnóstico, especialmente ao ver a doença retornar após uma cirurgia inicial. Hoje, após quase um ano de tratamento, ela expressa gratidão pelo medicamento que não apenas controla a doença, mas também lhe devolve a esperança de um futuro.
Entretanto, o acesso a essa terapia ainda é um desafio. O lorlatinibe, com um custo mensal que pode chegar a R$ 37 mil, não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, os pacientes podem obtê-lo através de planos de saúde ou por meio de decisões judiciais, o que levanta questões sobre a equidade no acesso ao tratamento. O oncologista Gustavo Schvartsman ressalta que, ao contrário de décadas passadas, quando a quimioterapia era a única opção, os avanços nas terapias-alvo oferecem uma nova perspectiva aos pacientes. “Agora, a pergunta não é mais quanto tempo o paciente tem, mas sim quais são suas chances de viver muitos anos com a doença controlada”, afirma.
A terapia-alvo, como o lorlatinibe, representa uma mudança de paradigma no tratamento do câncer, permitindo que médicos escolham medicamentos com base em mutações genéticas específicas. Essa abordagem não é apenas inovadora, mas também essencial, pois permite um tratamento mais eficaz e direcionado. O medicamento foi projetado para superar limitações de terapias anteriores, como a resistência do tumor e a dificuldade de penetrar no sistema nervoso central, onde metástases são comuns.
Apesar dos resultados promissores, os especialistas alertam sobre a necessidade de mais pesquisas. Aproximadamente 45% dos pacientes não tiveram o mesmo sucesso com o tratamento, e os efeitos colaterais, que incluem impactos no sistema nervoso central, não podem ser ignorados. O oncologista Stephen Stefani observa que, embora os dados sejam encorajadores, ainda há muito a entender sobre por que alguns pacientes não respondem ao tratamento e como gerenciar os efeitos adversos.
Além disso, o acesso ao diagnóstico molecular, crucial para identificar a mutação ALK, é um obstáculo adicional que muitos pacientes enfrentam. Sem a possibilidade de realizar esses testes em muitos sistemas de saúde, a eficácia do tratamento é comprometida. O lorlatinibe já foi discutido na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, mas foi rejeitado devido ao seu alto custo, o que levanta questões sobre a justiça na oferta de tratamentos que podem salvar vidas.
Enquanto a pesquisa avança e os dados de sete anos de acompanhamento oferecem novas esperanças, a luta pelo acesso a tratamentos inovadores como o lorlatinibe continua. Para muitos, como Paula, a expectativa de vida e a qualidade dela estão em jogo, e a sociedade deve se mobilizar para garantir que todos tenham a chance de um futuro. O desafio agora é transformar esses avanços científicos em realidade acessível para todos os pacientes que precisam.



