A intersecção entre os sistemas de saúde do Brasil e do Reino Unido revela uma rica tapeçaria de desafios e aprendizados mútuos. A experiência de Ana Luíza Gibertoni Cruz, médica que transitou entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o NHS, é emblemática nesse debate. Ao longo de sua carreira, ela testemunhou as nuances e as complexidades de ambos os modelos, que, embora distintos em sua operacionalização, enfrentam dilemas semelhantes.
Atualmente trabalhando em um hospital em Oxford, Ana Luíza está na linha de frente de um sistema que busca reestruturar sua abordagem ao atendimento primário, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os prontos-socorros. O NHS, que em 2025 lançou um ambicioso plano de reforma, enfrenta uma crise financeira e uma crescente demanda por serviços, questões que não são exclusivas do Reino Unido, mas que ecoam com intensidade no Brasil. A médica observa que a combinação de investimentos estagnados e um aumento na expectativa de vida trouxe à tona a necessidade de repensar o modelo de saúde em ambos os países.
Os desafios de acesso e qualidade no atendimento são evidentes. Tanto no SUS quanto no NHS, as desigualdades regionais persistem. Filas extensas e a escassez de profissionais são barreiras que dificultam a equidade na saúde, criando uma disparidade que se agrava conforme se avança nas regiões mais remotas ou menos favorecidas. A desigualdade no acesso aos serviços de saúde se torna ainda mais gritante quando se compara o Sudeste brasileiro, com uma média de 3,77 médicos por mil habitantes, ao Norte, que conta com apenas 1,70. Essa realidade exige não apenas mais médicos, mas uma melhor distribuição e qualificação dos profissionais já existentes.
Um aspecto crucial que emerge das experiências compartilhadas entre os dois sistemas é a necessidade de uma atenção primária mais robusta. Ambos os modelos reconhecem que a prevenção é fundamental para a sustentabilidade da saúde pública, mas a implementação efetiva dessas estratégias ainda enfrenta obstáculos. A proposta britânica de descentralizar os atendimentos e priorizar as comunidades pode servir como um importante guia para o Brasil, que já possui uma estrutura básica com as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). No entanto, a execução e o financiamento adequados dessas iniciativas são essenciais para garantir que elas cumpram seu propósito.
O envelhecimento da população é outra variável que demanda atenção. O Brasil, que se encontra em um estágio de envelhecimento mais acelerado que o do Reino Unido, enfrenta o desafio de atender uma população crescente de idosos com múltiplas comorbidades. Nesse contexto, a integração entre saúde e assistência social, observada na prática britânica, pode oferecer um modelo a ser seguido, especialmente em termos de cuidados domiciliares e suporte contínuo.
Concluindo, as experiências do NHS não devem ser vistas apenas como um espelho do que poderia ser o SUS, mas como um alerta sobre os desafios que ambos os sistemas enfrentam. A busca por soluções que priorizem o atendimento comunitário, a gestão eficiente dos recursos e a equidade no acesso é um caminho que requer não apenas políticas bem estruturadas, mas também um compromisso coletivo com a saúde pública. O futuro dos sistemas de saúde, tanto no Brasil quanto no Reino Unido, depende da capacidade de aprender com as experiências um do outro e de adaptar essas lições às realidades locais.



